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domingo, dezembro 10, 2006

Rouba-me Ao Crepúsculo


Rouba-me ao crepúsculo. Leva-me num bolso e esconde-me naquele saco que está cheio de cachecóis. Visita-me de pantufas quando todos estiverem deitados. Depois deixa-me sair no teu quarto para que possamos dançar. Não te preocupes, só tens de colocar os teus pés em cima dos meus, os teus braços à volta do meu pescoço e todo o teu peso na noite que entra pela janela. Quando nos cansarmos, estendemo-nos no chão. Atiramos todas as estrelas para o tecto, centenas e centenas, cada uma com um fio pendente. Tu deixas-te ficar deitada enquanto eu corro pelo quarto, saltando e dando piruetas, como uma sombra irrequieta, puxando os fios um a um fazendo-as cair. Serão pedacinhos de luz cintilante que te acompanharão o riso. Quando terminar, puxas-me tu pela roupa. E serei, também, cadente. Em ti.

Sei que não precisamos de fazê-lo em segredo, mas podemos. Shh…





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música: Songs: Ohia
pensamento: perdidos pelo sótão

Æmitis :: 13:00 ::: (3) Apêndice-[s]

É A Minha Vez


Estou a deixar crescer a barba. Tenho uma pasta negra, uma caneta permanente e um par de sapatos engraxados. De manhã levanto-me cedo, apressado e bebo muito café, depois regresso tarde, desarrumado e com o corpo um pouco mais curvado. Tenho uma dívida pendente, um horário inflexível e um encontro agendado. Tenho um fato encomendado, um escritório alugado e um cartão caducado. Aos fins-de-semana viajo na companhia de uma pequena mala silenciosa. Tenho dores de cabeça cansadas, rugas preocupadas e curas receitadas. Tenho o carro riscado… o carro riscado… RISCADO!

Mas sei quem foi...

Foste tu!

Mais ninguém o faria com todos aqueles lápis de cera.





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música: Songs: Ohia
pensamento: pensei que fosse coito

Æmitis :: 12:56 ::: (1) Apêndice-[s]




Outrora tive os braços frios…
Vestia casacos de mangas intermináveis, fazendo rodopiar o tecido que sobrava ao longo dos braços. Juntava-os contra o peito com muita força, tentando fazer com que pudessem entrar. Tentava enfiar as mãos nos bolsos, mergulhando-as tão profundamente que me enrolava sobre mim mesmo. Ficava assim, inerte numa bola, controlando a respiração e sentindo o sangue que insistia em fugir dos braços. As mãos enleavam-se e os dedos escondiam-se.
Tinha os braços tão frios…
De tão gelados que estavam não tremiam. Apenas pendiam, como estalactites polares. Tive medo que se partissem num movimento brusco, num gesto desnecessário ou num desastre circunstancial. O frio fez-me esquecer as pontas dos dedos. Eram inúteis agora. Apenas sabiam provocar arrepios nos corpos quentes. Eram como armas. Não as queria. Esqueci-as.
As estações passaram e a temperatura dos braços manteve-se. A minha estranheza também. Quando o desconforto se torna uma rotina, desaparece.
As estações passaram-me ao meu lado.
Certo dia, mais tarde, quando te esqueci, os meus braços aqueceram-se novamente.



mas era tarde demais para te abraçar.





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música: Songs: Ohia
pensamento: o teu corpo que muda

Æmitis :: 12:53 ::: (0) Apêndice-[s]

Quarto Alugado


O quarto estava cheio de folhas secas. Amarelas, castanhas e vermelhas. Poucas eram as que permaneciam inteiras. Espalhadas pelo chão, entre os outros destroços, desfeitas em mil pedaços ou desfiguradas pela queda. As janelas solidamente fechadas e a porta inexistente tornavam aquele quarto um repouso absoluto. Não eram mais que rascunhos. Ideias interrompidas num entardecer qualquer, enquanto ainda restava luz. Tinta negra que trespassava as folhas, palavras ocas que não chegavam a tocar-te a pele. Às que tinham apenas uma palavra, chamava-lhes solitárias. Eram frequentemente terminadas por um borrão sangrado. Outras eram apenas manchas, riscos que se confundiam com sujidade e que encontravam neste chão, e nos meus escurecidos pés, o seu eterno sossego.

O quarto estava cheio de água luzidia. Não era doce, nem salgada. Os seus tons variavam com as nuvens que se moviam pelo tecto e com a intensidade do candeeiro. Nos dias mais tempestuosos, era possível ouvir-se o sibilar marítimo de temor. Os rodapés minuciosamente isolados e as paredes matematicamente construídas certificavam-se que nenhuma das gotas pudesse sair. As janelas estavam muito acima do nível da água. Todas as gotas estavam seguras. Os meus pés inundados, constantemente enregelados, pareciam-me assustadoramente pálidos. Para me entreter, tentava mexer cada um dos dedos isoladamente. Do mindinho ao grande. Depois de algumas semanas já os conseguia fazer serpentear, em ambos sentidos, como um piano mudo. A água chegara de rios desviados, oceanos remotos, canos terminados, lagoas secretas, poças momentâneas, mares explorados, lágrimas soltas, chuvas férteis e de outros destinos incertos. Era uma parte do todo e fazia parte de tudo. Encontrava neste chão um solitário sossego.

O quarto estava cheio de erva verdejante. Militarmente alinhada, cobria todo o chão como um tapete feito de muitas camadas de linhas, mas dispostas em filas. Tinha crescido com força, sedenta de luz e de vida. Bebeu a água penetrante e escapou à escuridão da terra, voando até ao azul. Sempre mais acima, sempre. Quando cresceu o mais que podia, nunca descansando, criou-se. As janelas abertas deixavam o vento entrar. Era a sua música. Todos os dias ondulava em simultâneo, numa coreografia de admirável coordenação e vivacidade. Eu dançava também. Atirava os pés para o ar e todo o corpo os seguia. Depois, caía amparado pela vigorosa erva, que nunca se quebrava. Quando pisada, dobrava-se sobre si mesma, com invejável flexibilidade, e erguia-se novamente, mais determinada. Eu saltava todos dias até ficar exausto. Durante as noites frescas, deixava-me entrar um pouco mais e cobria-me os braços e as pernas. Um pequeno tufo juntava-se à minha cabeça, brincando de almofada. Encontrava neste chão, um amigo.


O quarto estava cheio de areia fina. Eram apêndices rochosos com a mais ínfima dimensão, mesmo antes de se tornarem em pó. Tinham cores imperceptíveis. Os pequenos montes que se juntavam nos quatro cantos do quarto mudavam de tonalidade de acordo com o ângulo em quem me colocava e com que o tórrido sol penetrava pelas janelas. Enterrava os pés na areia e sentia-me parte dela. Quis que me engolisse, mas cada um dos pequenos grãos sempre permanecia inerte. Desconheciam por completo a existência alheia. Depois de viajarem em botas de aventureiros, em bolsos de crianças, cabelos de amantes e na pele endurecida de pescadores, encontraram neste chão o seu eterno desassossego. O tempo virá para inverter o quarto.







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música: Songs: Ohia
pensamento: milhares de cores

Æmitis :: 12:41 ::: (0) Apêndice-[s]

 

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